A iniciativa foi implantada na Escola Estadual Reinaldo Thompson, localizada no Coroado, e conta com recursos da Fapeam por meio do PCE

Tornar as aulas dinâmicas e atrativas para as novas gerações é o grande desafio dos professores em sala de aula. As novas tecnologias são uma boa saída, mas outras ferramentas podem ser usadas como aliadas nesse processo. Foi pensando em novas alternativas para contribuir com o ensino-aprendizagem que surgiu o projeto “A Geografia através da Gastronomia”, implantado na Escola Estadual Reinaldo Thompson, localizada no bairro Coroado, zona leste da cidade.

Idealizado e coordenado pela professora da disciplina, Aione Machado, o projeto, que conta com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) por meio do Programa Ciência na Escola (PCE), foi desenvolvido por alunos do 6˚ ano do ensino fundamental e tornou-se o grande atrativo da escola.

A professora explica que a alimentação mudou muito ao longo dos anos e o cotidiano interferiu nesse processo tanto que um dos maiores problemas da sociedade moderna é a obesidade. “Como a Geografia é uma disciplina que requer estudo e análise crítica de temas do cotidiano e a Gastronomia também está impregnada de saberes sobre características culturais, pensei em associar as duas áreas num projeto de maneira a aguçar a curiosidade dos alunos”, disse.

Primeira etapa – No início, cinco alunos foram selecionados para participar como bolsistas e com o decorrer das atividades, outros se integraram voluntariamente. A primeira etapa consistiu no levantamento bibliográfico sobre conteúdos associados à prática gastronômica, principalmente acerca das origens, localizações geográficas, aspectos culturais, sociais e econômicos. Em paralelo, foram promovidos debates sobre as informações pesquisadas. Feito isso, os alunos visitaram feiras e supermercados para conhecerem os alimentos e aplicar questionários com o objetivo de coletar informações sobre a procedência, transporte e escoamento dos produtos.

As informações coletadas por meio das pesquisas e do trabalho em campo foram levadas para a sala de aula a fim de promover discussões com a participação dos demais alunos. A intenção, segundo a coordenadora do projeto, era fazer com que os estudantes participassem de nova dinâmica de discussão de conteúdos geográficos a partir da abordagem Geografia-Gastronomia.  “As frutas têm um conjunto de características, relacionados à origem, lugares, clima, entre outros. O nosso objetivo em sala de aula era justamente relacionar esses saberes com o ensino formal da Geografia e de maneira especial, valorizar as informações da gastronomia amazônica”, salientou a professora.

Alunos chefs – A intenção do projeto não era se restringir à teoria e sim, promover experiências marcantes. Foi então, que surgiu a ideia de levar a aula para dentro da cozinha. De acordo com a educadora, uma das formas de perceber o espaço geográfico como um lugar dentro de uma realidade é por meio dos sabores. A prova dessa relação é o processo que acontece na mente humana quando se sente o cheiro de um alimento e essa sensação remete a memórias passadas relacionadas a diferentes aspectos, como lugares, pessoas e ambientes.

Durante as aulas práticas de culinária, orientada pela professora e algumas mães, os “alunos chefs” ajudaram na preparação de pratos típicos de diferentes regiões. A experiência é lembrada com muito entusiasmo pelas crianças, que tiveram a oportunidade de degustar diversos sabores. Alguns mais comuns localmente, como o pirarucu à casaca, e outros mais presentes na mesa das populações de outros Estados, entre os quais a moqueca, que possui origem nordestina conforme as pesquisas feitas no decorrer do projeto.

Os alunos apresentaram o resultado das atividades em uma mostra de trabalhos ocorrida na escola. “Falamos sobre comidas típicas de todas as regiões do Brasil, como feijoada e pão de queijo, do sudeste; arroz carreteiro e polenta, do sul; e tacacá e pirarucu da região Norte”, lembra Júlia Castro.

Mudança de visão – O retorno do projeto foi tão satisfatório que mudou a visão dos participantes do projeto em relação à Geografia. Para Gabriel Lemos, foi importante porque proporcionou a ele conhecer grande variedade de frutas e verduras, bem como as características de suas regiões de origem. “Também aprendi muito mais sobre alguns conceitos, como espaços rurais e urbanos, e compreendi que nós mesmos podemos plantar os nossos alimentos”, comentou.

O estudante Ygor Viveiro relata que antes a Geografia servia somente para aprender sobre os planetas e o projeto ajudou-o a conhecer melhor sobre a cultura dos lugares. “Foram ótimas as experiências proporcionadas”.  Já o estudante Carlos Nunes fez questão de destacar a oportunidade de realizar pesquisas durante visitas às feiras e supermercados.

Interação com a família – Antes de se reunir na cozinha, alunos, professora e algumas mães compraram juntos os alimentos. “Acompanhei todas as atividades práticas, inclusive, na compra de alimentos e preparação dos pratos”, disse a dona de casa, Selmira Lemos, mãe de um dos bolsistas. Conforme ela, o projeto foi bastante interessante e além de ajudar no desempenho do filho em sala de aula, também está contribuindo dentro de sua própria casa. “Hoje, o Gabriel incentiva a família a ter uma alimentação mais saudável e ele também passou a se interessar por Gastronomia”, comentou a mãe, a qual espera que o projeto tenha continuidade e que a escola possa desenvolver outras atividades para estimular cada vez mais os alunos.

Na opinião da gestora da escola, Maria do Bom Parto Nascimento, a experiência foi enriquecedora no sentido do aprendizado e também por estimulá-los a realizar pesquisas. “Eles também levaram esse conhecimento para dentro das casas dele. Espero que continuem nessa linha”, afirmou.

A coordenadora do projeto ratifica a importância do incentivo à pesquisa por meio da iniciativa e ressalta a relevância da FAP no desenvolvimento da Ciência no Amazonas. “A perspectiva das crianças de bairros como o nosso não é esta. A ciência é algo muito distante. Então, faço questão de dizer que eles estão tendo uma oportunidade que poucos possuem de fazer pesquisa, ter currículo lattes e estar cadastrado como pesquisador no sistema da Fapeam aos 11 anos de idade”.  De acordo com a professora, obter o financiamento de uma instituição de fomento, como a Fapeam, é de grande importância e instiga muito mais a vontade de aprender e de buscar conhecimento. A educadora frisa ainda que o conhecimento geográfico é primordial na medida em que abrange diversos saberes, permitindo uma visão mais ampla da realidade e uma postura crítica frente a questões sociais.

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