Considerado “o patinho feio” na preferência dos consumidores e pescadores, o Liposarcus pardalis, conhecido popularmente como acari-bodó, revelou-se um peixe com um grande potencial econômico e social. Isso foi o que demonstrou a tese de doutorado “Alterações pos-mortem e aproveitamento tecnológico do músculo de acari-bodó, Liposarcus pardalis (Castelnau, 1855)”, de Fábio Tonissi Moroni da Coordenação de Pesquisas em Tecnologia de Alimentos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (CPTA/Inpa), defendida recentemente. A pesquisa apresentou três inovações tecnológicas para o consumo do peixe: os filés congelados, a compostagem e o hidrolizado protéico (decomposição das moléculas do músculo por meio da ação de enzimas).

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Foto:portaldoamazonas.com / Edson Piola

O pesquisador explicou que o acari-bodó é um peixe típico do Amazonas, pois ele não é encontrado em nenhum outro lugar do país. Faz parte da culinária cabocla por ter uma carne saborosa e costuma ser apreciado em forma de calderada, assado ou na forma de farinha de peixe, também conhecida como farinha de piracuí. Apesar de ser bastante conhecido pela população, ele é secundário na preferência dos pescadores, pois para mantê-lo vivo faz-se necessário aumentar os custos de produção, diminuindo sua lucratividade quando comparado às demais espécies de peixes amazônicos. Isso porque os pescadores precisam comercializá-lo dentro de embarcações parcialmente inundadas para mantê-los vivos (eles devem ser consumidos imediatamente após a morte, devido ao rápido processo de deterioração e ao odor insuportável que provocam). Esses seriam alguns dos problemas apontados por Moroni.

Mas, ele destacou que a idéia inicial do trabalho era saber quais as causas do mau odor do acari-bodó após a morte. As pesquisas indicavam que o músculo do peixe era o principal responsável, porém, no decorrer das investigações, foi constatado que as enzimas fabricadas pelo hepatopâncreas (órgão responsável pela liberação das enzimas do trato digestivo) na zona de transição entre o intestino e o estômago, onde se inicia a degeneração, são as vilãs do processo. Informação confirmada por meio de métodos sensoriais, físicos, químicos e microbiológicos para a avaliação da perda da qualidade. O pesquisador destacou que outros peixes também possuem o hepatopâncreas, porém eles não liberam as enzimas com a mesma intensidade, se considerado o mesmo período de tempo, após a morte.

Moroni ressaltou que nas feiras de Manaus o acari-bodó morre por inanição (falta de alimento) e asfixia (falta de oxigênio), enquanto definha em cima das bancas de alguns peixeiros, pois após ser pescado ele ainda consegue viver fora d””””água devido ao seu estômago, que, ao longo dos séculos, se especializou como um sistema respiratório acessório. Ele ressaltou que o correto é manter o peixe entre camadas de gelo, sem as vísceras. Dessa forma, ele chega a durar doze dias, enquanto que se comercializado na forma tradicional estraga em questões de horas. “O sistema de comercialização nas feiras é arcaico e deveria ser modificado, pois contribui para a baixa sobrevida do peixe e não promove a inclusão social dos ribeirinhos”, disse.

Para atrair ainda mais a atenção do cliente habituado a comprar somente o peixe vivo nos mercados, as tecnologias propostas seriam apenas o primeiro passo para promover o acesso aos benefícios do acari-bodó. Isso porque os filés congelados são de fácil aceitação pelo consumidor, por possuir uma aparência agradável, e se for conservado em temperatura adequada (20°C), o tempo de consumo aumenta para seis meses a um ano. Já o hidrolizado protéico é indicado para o consumo de pessoas que tiveram queimaduras de segundo e/ou terceiro graus pelo corpo e também por pacientes hospitalizados que precisam ser alimentados por sondas, já que a substância é rica em aminoácidos e peptídeos que ajudam na recuperação. Já a compostagem, o pesquisador explicou que ainda não pode falar sobre o assunto, pois está em processo de proteção do conhecimento.

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Foto:portaldoamazonas.com / Edson Piola

O acari-bodó também pode ser utilizado para a fabricação de farinha de peixe, o piracuí. O produto pode ser comercializado em supermercados ou ser incluído na merenda escolar, com o intuito de aumentar a ingestão diária de proteínas pelas crianças. Na realidade, não se perde nada do acari-bodó, pois até a carcaças dele é aproveitada. Para isso, basta triturar os resíduos e misturá-los com as enzimas do hepatopâncreas para a produção de ração animal. “Há toda uma cadeia produtiva envolvida que pode ser aproveitada”, afirmou Moroni, acrescentando que o músculo tem um alto teor protéico e baixo teor de lípideos, ou seja, baixo nível de gordura, podendo ser consumido por pessoas que fazem dietas com baixa ingestão de calorias.
Segundo o pesquisador, um dos primeiros caminhos à serem tomados para solucionar as questões apontadas seria mudar a cultura popular de se comprar o peixe somente vivo e a forma como ele é comercializado pelos pescadores, “o que é o mais complicado”, ressaltou. Uma alternativa apontada seria o trabalho de conscientização nas feiras e mercados da cidade, aliada a cartilhas, palestras e folderes. “A intenção é mudar as atitudes das pessoas em relação ao peixe”, destacou.

A pesquisa foi desenvolvida com um trabalho em conjunto da CPTA e do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM/Inpa), além de ter sido financiado pelo pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), orçada em R$ 65 mil, e contou com a participação de mais de 30 pessoas, entre bolsistas, pesquisadores e técnicos de instituições como a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Universidade de São Paulo (USP) e o U.S Meat Animal Research Center, em Clay Center, Nebraska (EUA).

Fonte: INPA

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