Baixo Rio Juruá, dados sobre a região ainda pouco conhecida pela ciência

Fazer ciência é, também, um ato de viajar, deslocar-se fisicamente e observar, em primeira mão, as coisas e os seres “nos próprios lugares onde a natureza os colocou”. Rodar o mundo expandindo os limites da compreensão humana movia naturalistas que, entre os séculos XVI e XX, empreenderam viagens exploratórias rumo ao que, então, era desconhecido. No Brasil, expedições proliferaram por todos os cantos, gerando contribuições essenciais para o que se sabe hoje sobre Botânica, Zoologia e diversas outras áreas do conhecimento. São dessa época nomes como Carl Von Matius, Henry Walter Bates, Paul Le Cointe, Emilia Snethlage e Domingos Soares Ferreira Penna.

Foto:Leonardo Lopes

Corte para os tempos atuais. Quando as fronteiras do mistério parecem ter migrado para o espaço ou para as profundezas do oceano, ainda existe muito a se descobrir aqui na mata e nas águas da maior floresta tropical do planeta, tão famosa quanto é pouco entendida: a Amazônia. Com participação do Instituto Mamirauá, expedições contemporâneas percorrem, desde 2014, grandes territórios do bioma amazônico, em busca de conhecer melhor a biodiversidade e a riqueza social dos povos que habitam e já habitaram a região. Muito além da curiosidade científica, as jornadas têm o propósito de conservação dos recursos naturais.

“Cinco anos atrás, fechamos um Termo de Reciprocidade com o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio). A ideia é que o Instituto Mamirauá apoie a gestão das unidades de conservação realizando pesquisas e extensão. É importante, para a gestão, conhecer e proteger a biodiversidade dessas áreas e, depois, gerar medidas de conservação das espécies”, informa João Valsecchi, diretor-geral do Instituto Mamirauá e zoólogo atuante nas expedições.

 

Foto:Leonardo Lopes

Além do Instituto Mamirauá, outras importantes organizações da Amazônia atuam em rede nas viagens científicas para levantamentos biológicos, pesquisas de cunho sociológico e arqueológico e, posterior, análise dos dados, como Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). “Estamos falando de grupos multidisciplinares e multi-institucionais. Com os principais institutos de pesquisa da Amazônia envolvidos, conseguimos inventariar com refinamento e qualidade muito alta”, ressalta o pesquisador do Instituto Mamirauá e bolsista do CNPq, Ivan Junqueira.

Rumo ao baixo Juruá

Em julho de 2018, os cientistas partiram, mais uma vez, em direção a um território pouco mapeado da Amazônia Ocidental: o baixo curso do rio Juruá. Importante afluente do gigante Amazonas, o rio Juruá nasce no Peru e transcorre pelos estados do Acre e do Amazonas. A última expedição científica de volume realizada na porção baixa do rio aconteceu nos anos 1990.

“Desde então, fomos a primeira expedição de pesquisa a voltar lá e levantar dados sobre a diversidade natural. Conseguimos, inclusive, dados inéditos, nunca antes coletados, um bom complemento para o conhecimento da biodiversidade do centro-oeste amazônico como um todo. Associadas às últimas expedições que fizemos, essas são as mais importantes coletas na região nos últimos 20 anos”, aponta Ivan.

Mais de 20 pessoas, entre cientistas, técnicos e assistentes de campo, divididas em dois grandes barcos de madeira. Essa foi a escalação da equipe que saiu da cidade de Tefé, no centro do Amazonas, rumo ao baixo Juruá, localizado a sudoeste do estado. Uma viagem de mais de 1.800 quilômetros, considerando os dois trechos.

Foto:Leonardo Lopes

O destino final foi a Reserva Extrativista (Resex) do Baixo Juruá, uma unidade de conservação com quase 190 mil hectares de extensão. “Foram vinte dias de coleta efetiva e quatro dias de deslocamento (ida e volta). A área é uma das mais distantes que já fomos. Foram mais de 3 mil litros de combustível usados nos trajetos”, conta o pesquisador. “Íamos até um ponto-limite com o barco, parávamos e, então, seguíamos em voadeiras [barcos menores a motor]. De onde o barco estava parado até às áreas em que fizemos as coletas propriamente, era uma média de uma hora e meia de deslocamento por voadeira todos os dias”.

Em campo

Um time de especialistas de diferentes áreas se uniu para registrar informações múltiplas sobre o Baixo Juruá. “Pensadas originalmente para mamíferos somente, estendemos as ações de levantamento para outros grupos da biodiversidade. Contemplamos, assim, o levantamento de peixes, aves, mamíferos, répteis, anfíbios, além de plantas e borboletas”, enumera João Valsecchi.

Em terra, pesquisadores percorriam quilômetros de trilhas na mata para observar e coletar espécimes de mamíferos de pequeno e médio porte, aves, répteis, anfíbios e borboletas. Nas bordas e sob lagos e furos de rio da região, foram feitas as coletas de peixes.

A pesquisadora do Inpa, Marina Maximiano, participou do levantamento da variedade de aves na região. “Somam-se à lista de espécies registradas algumas incomuns, como o tiranídeo Gaúcha-d’água (Muscisaxicola fluviatilis), típico de praias fluviais e que, geralmente, passa despercebido pelos observadores por possuir uma plumagem inconspícua, e o capitonídeo Capitão-de-bigode-limão (Eubucco richardsoni), típico de estratos florestais mais elevados. Os resultados para esse grupo indicam que a área apresenta uma avifauna bastante rica e diversa, ocupando uma grande heterogeneidade ambiental, o que evidencia a região como um importante local para potenciais estudos”, avalia.

“A diversidade que estamos encontrando é incrível! Em praticamente todos os grupos inventariados, temos novas ocorrências de espécies para a Amazônia brasileira. Temos três novas espécies de peixes e de pequenos mamíferos; há a possibilidade de encontrarmos bastante coisa daqui para frente”, revela o diretor-geral do Instituto Mamirauá.

No campo social, arqueólogos fizeram coletas de vestígios que ajudam a ampliar a visão sobre as ocupações humanas do presente e do passado. O processo de transição entre as diferentes populações humanas que habitaram as margens do rio Juruá ainda é obscuro. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que a região seria pobre em ocupações humanas antigas. “Essa expedição ao baixo rio Juruá possibilitou encontrar 26 sítios arqueológicos. E isso é apenas uma fração do que tem realmente na área”, conta Márcio Amaral, pesquisador do Instituto Mamirauá que conduziu os estudos arqueológicos.

Foto:Leonardo Lopes

As pesquisas sugerem que, pelo menos, quatro ciclos antrópicos (diferentes comunidades humanas) aconteceram por lá. Além do padrão Pocó, foram encontradas cerâmicas de padrão hachurado zonado, da Tradição Polícroma da Amazônia, e cerâmicas caboclas temperadas com cinzas de caraipé ou carapaça de quelônios, que até hoje são produzidas na região, mas vêm perdendo espaço para objetos de alumínio ou plástico. Cada um desses estilos representa uma ocupação diferente.

“Hoje, é difícil ter viagens de pesquisa que sejam tão multidisciplinares, porque, no geral, você tem uma expedição isolada de mamíferos, outra de herpetologia, outra de aves. Expedições como essa geram uma porção enorme de dados para dar base a pesquisas de todos os tipos. Informações como diversidade, distribuição de espécies, zoonoses, aspectos sociais das comunidades nas áreas do entorno, questões antropológicas em geral, de pessoas que estiveram ali antes das pessoas que estão hoje”, comenta Ivan Junqueira.

A Resex do Baixo Juruá foi a quinta área protegida inventariada por expedições do ICMBio em parceria com o Instituto Mamirauá. Estão nessa lista as Reservas Extrativistas Jutaí e Auati-Paraná e as Estações Ecológicas Jutaí-Solimões e Juami-Japurá. Grande parte do material coletado está depositado na coleção biológica do Instituto Mamirauá ou sob análise em centros de pesquisa parceiros. Uma lista prévia de levantamento da fauna foi enviada ao ICMBio e já está em uso do órgão para a gestão das unidades de conservação do estado do Amazonas.

(Matéria originalmente publicada no informativo “O Macaqueiro”, edição 81 – setembro a dezembro 2018. Confira o conteúdo completo aqui)

Texto: João Cunha e Bernardo Oliveira

10 thoughts on “Baixo Rio Juruá, dados sobre a região ainda pouco conhecida pela ciência”

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