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Marcelo Yuka lança disco para ‘dar conforto’ após idas e vindas do hospital

Marcelo Yuka acredita que ser utópico é um direito seu. Então pinta um mundo que considera melhor que o que temos, sem Donald Trump e Jair Bolsonaro. Falando em um “momento sem qualquer traço ideológico”, ele cita os dois para explicar por que seu primeiro disco solo, lançado na sexta (6), se chama “Canções para depois do ódio”.

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Conhecido por ser o homem por trás de alguns dos principais sucessos d’O Rappa – banda que deixou em 2001 -, o compositor carioca mantém o discurso engajado, dessa vez com versos mais esperançosos e subjetivos que “paz sem voz não é paz, é medo”. Por trás da política, há o desejo de “dar conforto” em tempos difíceis. “Meu sonho é fazer canções que possam ser amigas, às quais você possa se reportar num momento em que precisa de conforto. Quero fazer esse serviço”, diz ao G1.

Nas 16 faixas autorais, fala de protestos, bombas, do Maracanã e da depressão que viveu após ficar paraplégico depois de ser baleado ao tentar impedir um assalto no Rio, em 2000. As letras são combinadas a uma sonoridade que mescla batidas eletrônicas e ritmos afro, fruto da parceria com o produtor e DJ Apollo 9. Céu, Seu Jorge, Cibelle, Bukassa Kabengele e outros emprestam suas vozes às músicas.

Em um hospital, de onde conta ter ido e voltado várias vezes em 2016 enquanto trabalhava no álbum, Yuka diz que as internações mudaram sua relação com a tolerância, cita os adolescentes que ocuparam escolas pelo país como “referências” e critica o monopólio do sertanejo nas rádios e na TV. Leia na entrevista abaixo.

G1 – Sobre o nome do disco, “Canções para depois do ódio”, a que tipo de ódio você se refere?
Marcelo Yuka – Donald Trump. Jair Bolsonaro, todas as cercas da Europa… estamos vivendo um momento de ódio muito forte, e eu tenho que pensar num ponto além disso. Não é utópico. Mas, se for, tenho direito de ser. Eu sou poeta, sou artista, tenho direito de levar a utopia para a sociedade. Principalmente agora, num momento como esse, em que parece que a gente perdeu qualquer traço ideológico. A minha maior ideologia é o amor, estou convicto disso, de que o afeto é um ato político. Estou me educando com os garotos que ocuparam escolas, sabe? Estou me educando com isso.

G1 – Você já falou em outras entrevistas que esse trabalho tem muito a ver com o processo de depressão pelo qual passou, e com o que te ajudou a lidar com ele. De que forma isso pode ser visto?
Marcelo Yuka – Em quase todas as canções. Eu não me levantei pelo disco, mas porque precisava. Eu precisava ganhar da depressão, independentemente do disco. Mas ele me ajudou. “Assim é a água” é uma música em que isso pode ser visto. “Agora nesse momento” também. Meu sonho é fazer canções que possam ser amigas, às quais você possa se reportar num momento em que precisa de conforto. Se eu posso dar um conforto a alguém, quero fazer esse serviço. E a única coisa que eu sei fazer é música, pelo menos tento.

G1- O tempo que você passou no hospital em 2016, enquanto estava produzindo o disco, trouxe algo para esse trabalho?
Marcelo Yuka – Tolerância. Eu entendi a tolerância como ato político. Hoje a tolerância para mim tem outros sentidos, talvez por causa desse impedimento físico. Tenho procurado um sentido espiritual para as transições, cada uma delas tem a procura de um sentido espiritual. É pretensioso, mas por que não ser pretensioso nesse sentido?

G1 – O que houve com a sua saúde? Como você está atualmente?
Marcelo Yuka – Eu começo a fazer show em janeiro ou fevereiro. E essa é a melhor resposta para sua pergunta. A única possível. Estou animado para os shows. Esse disco comunica bem, estou felizão em estar defendendo ele.

G1 – Mas também há uma veia política muito forte no disco. Qual mensagem você quis passar?
Marcelo Yuka – Não tenho uma mensagem. Não fiz um disco de mensagens, mas de canções, para algum momento que seja depois do rancor. O que eu tenho a dizer é qualquer coisa, menos o ódio. Posso conversar com você uma noite inteira, mas não tolero seu ódio. Dia desses saiu uma matéria grande sobre mim em um jornal, e um cara nos comentários falou que pessoas com meu pensamento deveriam ser mutiladas, aleijadas. Ele foi cruel, mas eu não teci uma palavra porque o que ele tava propondo era o ódio. Aí não tem conversa. É fácil falar contra preto, contra pobre. Antes as pessoas tinham esse rancor e guardavam para elas, agora atiram pedras, fazem justiça com as próprias mãos. Nós somos o país que mais mata negros no mundo. Isso é um absurdo. A maneira como o negro no Brasil é tratado é um mal epidêmico. Falam de chikungunya, vai tomar no c… tiro mata muito mais que chikungunya.

G1 – “Movimento da massa”, a primeira música divulgada, fala do Maracanã, mas também sobre protestos, e remete muito mais aos atos de 2013 do que às manifestações de 2016. Você acha que os dois movimentos estão ligados diretamente?
Marcelo Yuka – Sinto que em 2016 houve um movimento sindical. No Rio, tem funcionário que está passando fome. Teve uma coisa do funcionalismo ir para rua para pedir alguma coisa. Em 2013 a coisa era mais homogênea, éramos todos nós. Esse sentimento ganhou dos órgãos de repressão. Fomos para rua, apesar dos órgãos de repressão. Esse disco é influenciado, sim, por 2013. Não é só isso, mas tem uma grande influência disso.

G1 – Qual o seu sentimento em saber que algumas das suas músicas da época d’O Rappa hoje servem como trilha para uma juventude insatisfeita?
Marcelo Yuka – No início das jornadas de 2013, fui procurado por um jornalista que dizia que “paz sem voz não é paz, é medo” era a frase mais levantada nos protestos. Me sinto orgulhoso, é claro. “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” é uma frase simples, mas que ainda é pichada em carros de polícia por aí. “Paz sem voz” também se tornou quase um clichê de manifestação. Eu acho importante um artista conseguir ter essa transcendência, de ser mais do que a melodia pode impor. Dizer alguma coisa dentro da canção que extrapola o fato de ser uma canção. Levar a canção ao extremo. Gosto dessa sensação.

G1 – Em que medida a situação política no Brasil afetou a cultura do país?
Marcelo Yuka – Diretamente. Eu não reconheço esse Ministério da Cultura. Só quero ter o direito de trabalhar. A gente não pode perder a noção de que, eu posso não acreditar no Ministério, mas ele tem que trabalhar para mim também.

G1 – Acha que o momento turbulento pode fazer surgir um movimento artístico novo, relevante?
Marcelo Yuka – A gente vive uma época em que tudo é mais rápido. É mais difícil perceber os movimentos, porque tudo se movimenta muito rápido. Seria bom que surgisse uma contraproposta a isso que se apresenta politicamente. Mas é tudo muito desintegrado para haver a força de um movimento contra a política, um momento cultural para a gente ver nos livros daqui a 50 anos. Acho muito difícil isso acontecer. Os tempos são outros.

G1 – O que há de bom e de ruim na música brasileira atualmente?
Marcelo Yuka
– Estou um pouco isolado, não ouço esse sertanejo, e nem vou ouvir. Assim, é divertido… deve ser. Não estou julgando, só não é atrativo para mim. Falando de música sertaneja, o Renato Teixeira sempre chamou minha atenção. Isso, um dia, foi a promessa de uma música sertaneja. Hoje é uma coisa que eu não entendo muito, e que se multiplicou, parece que só tem isso. Gosto muito de funk, mas no dia em que só ele estiver tocando, vou pegar uma bandeira antifunk e colar no meu peito. Não dá para ser uma coisa só, não dá para a rádio e a TV tocar uma coisa só. Isso me embrulha o estômago. Talvez isso aconteça um pouco com o sertanejo hoje. Mas estou meio por fora. Gosto de música eletrônica inglesa. Também não gosto de música de pista. Gosto de samba, não gosto muito de pagode. Gostei do disco novo do Martinho [da Vila]. Gosto da Orkestra Rumpilezz, sou doido para ver um show deles, e gostei de ver a Baiana System no carnaval da Bahia, é uma outra possibilidade para o carnaval.

G1 – Em 2012, você foi candidato a vice-prefeito do Rio na chapa de Marcelo Freixo. Como vê a derrota dele para Marcelo Crivella agora?
Marcelo Yuka – Dificil. Como eu falei, os garotos que ocuparam as escolas são referências para mim. Pelo voto, eu vejo o caminho do Freixo. Ideologicamente, a molecada. Essa molecada vai produzir alguma coisa que eu ainda não sei, mas que já estou vendo.

G1 – Você ainda cogita se envolver na política partidária?
Marcelo Yuka – Não, de jeito nenhum. Mas, com o Crivella no poder, eu fico de olho em qualquer coisa que possa ser feita como contraproposta a isso. Precisamos ainda manter um governo laico. Não temos mais. O Rio tinha essa onda de progressista, progressista é o c… nego está na praia, mas é muito conservador. Pode colocar o biquininho pequeno, mas é muito conservador, e a prova disso está no Crivella. Para mim, falar em Crivella é falar em decepção.

Fonte:g1.globo.com/musica/noticia/marcelo-yuka-lanca-disco-para-dar-conforto-apos-idas-e-vindas-do-hospital.ghtml

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